Um Trauma
Três.
Ela morava perto. Minha janela estava em frente a sua, ainda que em diferentes prédios. Mesmo que não soubesse, ela acabara se tornando minha companheira, pois eu costumava sentar sobre a borda da janela quando queria pensar, hábito frequente.
Sabia que cursava a mesma faculdade que eu, então, alguns meses após algo trágico, decidi mandar-lhe uma carta para irmos juntos ao primeiro dia do reinício das aulas. Ela aceitou.
Nos encontramos, conversamos. Nos demos bem.
Não nos falamos por uns dias. Não nos cruzávamos. Eu não tinha seu telefone.
Certa noite após a aula, quando eu já estava em casa, escrevi outra carta. Fiquei em frente ao seu prédio esperando que ela chegasse. Entreguei-a, ela disse obrigado. Fui embora.
Ela não me ligou ou me procurou.
Ressalto que não estava apaixonado. Queria e precisava de uma companhia, talvez precisasse descobrir quem eu havia me tornado.
Dia 14 de fevereiro. A enviei outra carta. Novamente pedi sua atenção, pedi para ser seu amigo, nada além disso. Ela respondeu.
Aos seus olhos eu era assustador, havia invadido sua privacidade.
Fiquei mal. Nunca havia oferecido ou pedido a amizade de qualquer outra pessoa; não havia lhe dito nada que não para minha sagrada mãe.
Bloqueie tal fato. Tal sentimento.
Isso tudo aconteceu em 2003. Ainda hoje sinto os efeitos de tal trauma. Ainda hoje tenho me de causar medo, de ser como sou. Ainda hoje, mesmo sem perceber, sempre tenho receio de procurar ou conhecer alguém.


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