Sexta-feira, 8 de Agosto de 2008

Cálice

-Chico Buarque e Milton Nascimento

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice de vinho tinto de sangue.
Como beber dessa bebida amarga,
tragar a dor,
engolir a labuta?
Mesmo calada a boca, resta o peito,
silêncio na cidade não se escuta.
De que me vale ser filho da santa?
Melhor seria ser filho da outra,
outra realidade menos morta,
tanta mentira, tanta força bruta.

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice de vinho tinto de sangue.

Como é difícil acordar calado,
se na calada da noite eu me dano.
Quero lançar o grito desumano,
que é uma maneira de ser escutado.
Esse silêncio toda me atordoa,
atordoado eu permanço atento na arquibancada
pra a qualquer momento ver emergir o monstro da lagoa

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice de vinho tinto de sangue.

De muito gorda, a porca já não anda.
Cale-se!
De muito usada a faca já não corta,
como é difícil, pai, abrir a porta.
Cale-se!
Essa palavra presa na garganta.
Esse pileque homérico no mundo.
De que adianta ter boa vontade?
Mesmo calado o peito, resta a cuca dos bêbados no centro da cidade.

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice de vinho tinto de sangue.

Talvez o mundo não seja pequeno,
Cale-se!
Nem seja a vida um fato consumado.
Cale-se!
Quero inventar o meu próprio pecado,
Cale-se!
Quero morrer do meu próprio veneno
Cale-se!
Quero perder de vez tua cabeça
Cale-se!
Minha cabeça perder teu juizo
Cale-se!
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Cale-se!
Me embriagar até que alguém me esqueça
Cale-se!

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