Seis
Seis anos.
Há seis anos eu morri.
Tanto aconteceu em tal tempo; muito mais do que pensava ser possível, muito mais do que a lógica entende ou explica, assim como o fato de eu ainda estar aqui.
É difícil, senão impossível, comparar os dias de hoje com os de então. Tudo mudou, desde meu corpo até meu espírito, passando, é claro, por meus amigos, objetivos, paixões, sonhos e, é claro, meu corpo.
Não consigo expor ou ver o que exatamente está diferente. O máximo que posso garantir quanto a isso é que meu corpo tem titânio, minha visão foi prejudicada e nunca mais sentirei qualquer cheiro. Muitos dizem que isso é bom, que é ótimo não se incomodar com lugares ou pessoas fedidas, mas eu digo que um perfume vence qualquer fedor e nunca mais sentirei o cheiro das rosas, da pessoa que abraçar ou amar. Isso é bom?
Minha memória mudou. Grande, senão a maior parte de 2002 e 2003 não foram registrados. Porém, a mesma parece ter voltado ou se adaptado à situação atual, me lembro de tudo o que for importante (mesmo que eu nem sempre saiba), esqueço o que ou quem não me interessa.
Em 2003 entrei em uma nova sala na faculdade. Todos desconhecidos. Quantos estão comigo até hoje, anos após a formatura? Zero. Número igual aos da sala anterior. Eu parti ou eles partiram? Quem mudou? Não tenho mais do que dois amigos presentes, mesmo que em seis anos eu tenha conhecido mais pessoas do que nos vinte e dois anos anteriores. Em bares ou boates não se fazem amigos mas sim, no máximo, conhecidos. Em tais lugares me viciei. Madame Satã, Buim, "bar da esquina". Mesmo que nunca fique bêbado, o álcool se tornou meu mais fiel e solidário companheiro; a música a mais atenciosa e sábia conselheira, tenha ela vindo da Legião Urbana, Chico Buarque, Morrissey, Nightwish ou Falcão.
Tantas ilusões foram criadas e vistas como memórias, até hoje me lembro de receber um cigarro da enfermeira ou de quando fui assaltado em um caixa eletronico, quando na verdade eu estava sozinho e me flagelei.
Por pior que seja o que disse acima, quem me vê pensa que tais males não me afetam. Claro, nunca me viram chorando, afinal, por mais que eu tente e queira, isso não acontece desde 2000.
Contudo, não sou pessimista como antes era. Passei a ter Fé em Deus, desenvolvi sensitividade, voltei a desenhar e comecei a escrever de forma séria.
Hoje vejo que é preciso muito para me derrubar ou me abalar. Por mais cansado que esteja, mantenho em mente e no coração que existe um motivo real para ser admirado e invejado por muitos.
Mesmo que não consiga me desprender do passado, não consiga aceitar o que houve entre mim a Cybele, Patty ou Raquel, eu segui em frente e hoje estou com quem me vê como sou e por isso me ama.
Amigos, muitos amigos se foram, quanto a isso não posso expressar meu pesar, porém, desconhecidos já foram à minha festa de aniversário, já pediram meu abraço ou desejam me conhecer sem nunca terem falado comigo.
A Terra treme diariamente mas nunca para de girar.
Há seis anos eu renasci.


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